sexta-feira, 4 de novembro de 2011

sua poesia



ja que nunca poetisei pra ti
hoje, depois de seu mentir
quero mesmo é somente rir (...)

(r...) ir
(.r..) ir
(..r.) ir
(...r) ir
ir...ir...ir...ir...ir

que a rima seja em demasia, fria e pobre
e meu riso fecunde sobriamente o pólen
modificando sua dissimulação em algo nobre

rir com escárnio
buscando no escarro
expulsar todo enfado
de um mero sentir, barato

é necessário é necessário


talvez, documentar este pobre fato
pois minha memória tem se negado
e subitamente, até deletado, seus dados

e nada armazenado e nada armazenado


jamais coisa rara
custosa ou mui cara
inventiva, amarga
venenosa e rasa

saia da estrada macabra
sem placas e sem amarras
deixando-me findar este legado
em que o recado fora-me revelado

amargo
amar
go...go...go...go...go

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Natimorto


Com as imagens ainda latentes na minha retina arranhada por uma profusão de idéias que se intercalam sobrepostas e nada impostas na concatenada teia de complexas idiossincrasias indigestas pelas quais fui submetido por tal película, reluto em refluir o alimento que me fora ofertado pelo angustiante abismo no qual precipitei-me ao longo do filme por se tratar de nutrição de grande valia, embora úlcera aberta, in vida. A desconcertante presença da reflexão intimista marcada na imersão da consciência individual, pincelada pela opressiva e sombria condição humana, revela-nos seus limites e abismos. Baseado no livro de Lourenço Mutarelli, cuja escrita apresenta-se como uma das mais híbridas e instigantes da atual produção literária nacional, repleta por diálogos desconcertantes, limados com humor ácido e pautada pela recorrência ao simbolismo existencial, o filme é fruto da adaptação do segundo livro do Kafkoiévski Paulistano, cuja densidade e ironia insultam os níveis das sadias mentes benevolentes defensoras de uma visão antropologicamente positiva da perversa natureza humana. Afinado roteiro, com diálogos impactantes, a prática da taromancia com as mensagens e figuras doentias que ilustram o verso dos maços de cigarros, somados as estórias contadas pelo personagem interpretado por Mutarelli, findam, por revelar, consequências surreais e epifânicas resultantes das divagações em que ambos se lançam no enclausurado quarto de hotel onde se encontram. Atmosfera destrutiva e depressiva, profícua reflexão perturbadora, flerte com a esquizofrenia, dentre outras características, exemplificam de modo profundo o Eros e Tânatos que habitam (D)ENTR(O)E nós, pobres criaturas, desta mendicância torpe de uma vivência desvairada e envaidecida na qual fomos submetidos sem quaisquer autorizações ao OUTREM(DEUS). Talvez por isso ele vislumbre tanta beleza na passagem súbita da existência para não-existência de um ser como NATIMORTO.



PS: Simone Spoladore está maravilhosa. Fotografia belíssima. Lourenço, sem comentários...